Cristo revelado na Páscoa judaica

A festa da Páscoa é celebrada por judeus há milhares de anos. É a narrativa da grande história de como Deus redimiu o povo judeu da escravidão no Egito, conforme relatado no Capítulo 12 do livro de Êxodo, no Antigo Testamento da Bíblia.

A celebração em si foi dada aos judeus enquanto eles ainda estavam no Egito e inicialmente era centrada em torno do cordeiro pascal. Esse cordeiro era sacrificado e o seu sangue colocado sobre os umbrais das portas, como sinal de fé, para que o Senhor passasse (e daí o nome Páscoa, Pesach, Passover) por cima das casas dos judeus durante a última praga derramada sobre os egípcios – a matança de todos os primogênitos (cf. Êxodo 12:23).

No primeiro século, o cordeiro ainda era sacrificado anualmente na Páscoa, conforme pode ser confirmado no relato histórico do Novo Testamento:

Finalmente, chegou o dia dos pães sem fermento, no qual devia ser sacrificado o cordeiro pascal. Jesus enviou Pedro e João, dizendo: ‘Vão preparar a refeição da Páscoa’”. [Lucas 22:7-8]

Menos de um século depois, com a destruição do Templo, o cordeiro da Páscoa passou a ser excluído do “Seder” (jantar cerimonial da Páscoa judaica), e não é incomum o uso de osso de galinha assado para simbolizar o cordeiro.

O Novo Testamento (1 Coríntios 5:6-7) diz que Jesus é o nosso cordeiro pascal (o sacrifício). As passagens são:

O orgulho de vocês não é bom. Vocês não sabem que um pouco de fermento faz toda a massa ficar fermentada? Livrem-se do fermento velho, para que sejam massa nova e sem fermento, como realmente são. Pois Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi sacrificado.” [1 Coríntios 5:6-7]

Estas coisas se passaram em Betânia, do outro lado do Jordão, onde João estava batizando. No dia seguinte, viu João a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” [João 1:29]

No dia seguinte, estava João outra vez na companhia de dois dos seus discípulos e, vendo Jesus passar, disse: Eis o Cordeiro de Deus!” [João 1:35-36]

Sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo.” [1 Pedro 1:18-19]

Um dos anciãos tomou a palavra, dizendo: Estes, que se vestem de vestiduras brancas, quem são e donde vieram? Respondi-lhe: meu Senhor, tu o sabes. Ele, então, me disse: São estes os que vêm da grande tribulação, lavaram suas vestiduras e as alvejaram no sangue do Cordeiro.” [Apocalipse 7:13-14]

Então, ouvi grande voz do céu, proclamando: Agora, veio a salvação, o poder, o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo, pois foi expulso o acusador de nossos irmãos, o mesmo que os acusa de dia e de noite, diante do nosso Deus. Eles, pois, o venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida.” [Apocalipse 12:10-11]

De acordo com Êxodo 12:5, o cordeiro pascal tinha que ser um “macho sem defeito”, que é a mesma descrição dada para Jesus em 1 Pedro 1:18-19 (V.  passagens já transcritas acima).

Observe que o cordeiro pascal era separado no 10. dia do primeiro mês hebreu (Nisan ou Abib). Eles tinham que examinar o cordeiro minuciosamente antes de o matarem no 14o. dia. O cordeiro tinha que ser imaculado.

Lucas 19 registra a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém alguns dias antes de Sua crucificação. Exatamente na mesma hora em que o povo estava trazendo os seus cordeiros pascais para serem examinados pelos sacerdotes, Jesus, o Cordeiro de Deus, estava Se apresentando diante do povo e dos líderes para um minucioso exame antes do Seu sofrimento e glória.

Ele também, como “… o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo,” tinha que ser declarado “santo, irrepreensível, imaculado, e inviolado pelos pecadores” [João 1:29; Hebreus 7:26].

No 10. dia de Nisan (ou Abib), Jesus Se apresentou para inspeção. Isto é claro em Mateus 22.15-46. Esta incrível passagem mostra Jesus sendo examinado pelos Herodianos, Saduceus, Doutores da Lei, e pelos Fariseus. A conclusão deste tempo de testes e exame encontra em Mateus 22.46: “E ninguém lhe podia responder palavra, nem ousou alguém, a partir daquele dia, fazer-lhe perguntas”.

Jesus também foi avaliado pelas autoridades civis: após um minucioso exame, o próprio Pilatos declarou: “… não acho nele crime 2696043306_04d3b086a9algum” [João 19.4]. Este veredito legal e civil foi dado exatamente na mesma hora em que os cordeiros pascais estavam sendo examinados e declarados imaculados pelos sacerdotes. Pilatos declarou que Jesus era inocente três vezes [João 18:38; 19:4-6].

Pilatos não compreendeu como foi importante esta declaração de inocência. Ele não sabia que Jesus era o Cordeiro de Deus, o Qual estava sendo apresentado a ele para ser inspecionado. Pilatos sabia muito pouco sobre o decreto divino de cerca de quatorze séculos antes: “O vosso cordeiro será imaculado, um macho…” [Êxodo 12:5]. “Porém, se houver algum defeito (falha) nele… não o sacrificará ao Senhor vosso Deus” [Êxodo 12.21].

Em seu decreto final, as palavras de Pilatos são absolutamente proféticas: “… disse-lhes Pilatos: Tomai-O vós, e crucificai-O; porque não vejo nenhuma falha [imperfeição] n’Ele” [João 19.6].

Na mesma hora em que os cordeiros pascais estavam sendo sacrificados e o sangue deles estava sendo derramado no altar do Templo, eles levaram Jesus e O crucificaram.

Um outro aspecto relacionado ao cordeiro, era que quando fosse assado e comido, nenhum dos seus ossos podiam ser quebrados: “O cordeiro há de ser comido numa só casa; da sua carne não levareis fora da casa, nem lhe quebrareis osso nenhum.” [Êxodo 12:46]

Esse fato também foi profetizado para o Messias, cujos ossos não eram para ser fraturados: “Preserva-lhe todos os ossos, nem um deles sequer será quebrado.” [Salmo 34:20]

Nas crucificações (método de execução do Império Romano) costumava-se quebrar os ossos das pernas da pessoa crucificada depois de algumas horas, a fim de apressar a sua morte. A única maneira que uma pessoa podia respirar quando pendurada em uma cruz era pressionar para cima com as pernas, o que era muito desgastante. Com as pernas quebradas, a morte por asfixia seria inevitável. No entanto, no caso de Jesus, eles quebraram as pernas dos dois outros condenados crucificados ao seu lado, mas não quebraram as suas, uma vez que Ele já estava morto. Para terem certeza de que realmente estava morto, enfiaram uma lança na lateral de sua região abdominal, sem que tenha havido qualquer reação de Jesus, pois realmente estava morto.

Os soldados foram e quebraram as pernas ao primeiro e ao outro que com ele tinham sido crucificados; chegando-se, porém, a Jesus, como vissem que já estava morto, não lhe quebraram as pernas. Mas um dos soldados lhe abriu o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água. Aquele que isto viu testificou, sendo verdadeiro o seu testemunho; e ele sabe que diz a verdade, para que também vós creiais. E isto aconteceu para se cumprir a Escritura: Nenhum dos seus ossos será quebrado.” [João 19:32-36]

Simbolismo da Páscoa

Uma enorme parte do simbolismo da semana da última Páscoa de Jesus deixou de ser percebida, pois a maioria de nós não tem conhecimento dos costumes da época nem das prescrições das escrituras hebraicas sobre o sacrifício do cordeiro, as quais têm imensa relevância profética.

Como exemplo, Jesus entrou na cidade de Jerusalém cinco dias antes do cordeiro ser morto no templo, como o sacrifício da Páscoa para os pecados do povo de Israel. Cinco dias antes de o cordeiro ser sacrificado, ele deveria ser escolhido e inspecionado. Por isso, Jesus entrou em Jerusalém no dia da seleção do cordeiro, como o Cordeiro de Deus.

No dia seguinte, viu João a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” [João 1:29]

As pessoas não entenderam o significado do Messias como o Cordeiro de Deus prefigurado na Páscoa do Êxodo, uma vez que o receberam com folhas de palmas e aclamaram-no como Rei, gritando “Hosana”, que significa “salve-nos”.

No dia seguinte, a numerosa multidão que viera à festa, tendo ouvido que Jesus estava de caminho para Jerusalém, tomou ramos de palmeiras e saiu ao seu encontro, clamando: Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor e que é Rei de Israel!” [João 12:12-13]

E a maior parte da multidão estendeu as suas vestes pelo caminho, e outros cortavam ramos de árvores, espalhando-os pela estrada.” [Mateus 21:8]

E, quando se aproximava da descida do monte das Oliveiras, toda a multidão dos discípulos passou, jubilosa, a louvar a Deus em alta voz, por todos os milagres que tinham visto, dizendo: Bendito é o Rei que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas maiores alturas!” [Lucas 19:38]

E as multidões, tanto as que o precediam como as que o seguiam, clamavam: Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores alturas!” [Mateus 21:9]

Tanto os que iam adiante dele como os que vinham depois clamavam: Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor! Bendito o reino que vem, o reino de Davi, nosso pai! Hosana, nas maiores alturas!” [Marcos 11:9-10]

Eles diziam Hosana (“salve-nos”), mas estavam mesmo é à procura de um libertador político e rei para a nação de Israel, pois estavam sob o domínio do Império Romano. Ramos de palmas eram um símbolo de liberdade e rebeldia, uma vez que Simão Macabeu havia entrado em Jerusalém com aquele simbolismo (cf.  1 Macabeus 13:51 e 2 Macabeus 10:7).

A reação de Jesus foi chorar, porque viu que eles não haviam compreendido o propósito nem o tempo da vinda do Messias.

Quando ia chegando, vendo a cidade, chorou, e dizia: Ah! Se conheceras por ti mesma, ainda hoje, o que é devido à paz! Mas isto está agora oculto aos teus olhos. Pois sobre ti virão dias em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras e, por todos os lados, te apertarão o cerco; e te arrasarão e aos teus filhos dentro de ti; não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste a oportunidade da tua visitação.” [Lucas 19:41-44]

O Sacrifício Pascal

O dia em que Jesus foi crucificado era o dia da celebração da Páscoa e o dia em que o cordeiro pascal deveria ser sacrificado. Durante os 1200 anos até então, o sacerdote soprava o shofar (chifre de carneiro que emite sons ceminoniais) às 3h da tarde,  momento em que o cordeiro era sacrificado, e o povo parava para contemplar o sacrifício pelos pecados.

Às 3h da tarde, quando Jesus estava na cruz desde antes do meio-dia (cf. Lucas 23:44-46), Ele disse: “Está consumado” no momento em que o cordeiro pascal era sacrificado e o shofar era tocado no Templo.

Por volta da hora nona, clamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactâni? O que quer dizer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? (…) E Jesus, clamando outra vez com grande voz, entregou o espírito.” [Mateus 27:46-50; veja também Marcos 15:34-37 e Lucas 23:44-46]

Observação: na antiga forma dos hebreus marcarem as horas, o dia começava ao amanhecer (aprox. 6h da manhã). Portanto, a nona hora na narrativa bíblica equivale ao que hoje conhecemos como 3h da tarde do dia (da convenção romana, hoje utilizada) cuja contagem de horas começa à meia-noite.

Quando, pois, Jesus tomou o vinagre, disse: Está consumado! E, inclinando a cabeça, rendeu o espírito.” [João 19:30]

O sacrifício do cordeiro de Deus foi cumprido na hora que o sacrifício animal simbólico acontecia normalmente no Templo. Simultaneamente, o véu do templo (um pano com mais de cinco centímetros de espessura, com vários andares de altura, que demarcava o recinto chamado Santo dos Santos) rasgou-se de cima a baixo – o que representa uma remoção da separação entre Deus e o homem.

…por trás do segundo véu, se encontrava o tabernáculo que se chama o Santo dos Santos” [Hebreus 9:3]

Eis que o véu do santuário se rasgou em duas partes de alto a baixo; tremeu a terra, fenderam-se as rochas (…)” [Mateus 27:51]

E o véu do santuário rasgou-se em duas partes, de alto a baixo.” [Marcos 15:38]

Já era quase a hora sexta, e, escurecendo-se o sol, houve trevas sobre toda a terra até à hora nona. E rasgou-se pelo meio o véu do santuário. Então, Jesus clamou em alta voz: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito! E, dito isto, expirou.” [Lucas 23:44-46]

Várias semanas depois da morte de Jesus, na Festa de Pentecostes, Deus enviou o Espírito Santo para habitar não em um templo construído com argamassa e tijolos, mas naqueles que invocam o nome de Jesus Cristo, conforme relatado no capítulo 2 do livro de Atos dos Apóstolos.

Sepultamento

O primeiro dia da festa dos Pães Ázimos (festa também chamada muitas vezes simplesmente de Páscoa, nome genérico que acabou abrangendo a semana que vai desde o dia 14 até o dia 22 do primeiro mês hebreu) é primariamente uma celebração do sepultamento de Jesus no coração da terra. Esse primeiro dia (que corresponderia ao Sábado de Aleluia) também comemora o processo de morte para a nossa própria natureza pecaminosa.

Esta festa está registrada no capítulo 23 do livro de Levítico:

São estas as festas fixas do SENHOR, as santas convocações, que proclamareis no seu tempo determinado: no mês primeiro, aos catorze do mês, no crepúsculo da tarde, é a Páscoa do SENHOR. E aos quinze dias deste mês é a Festa dos Pães Asmos do SENHOR; sete dias comereis pães asmos.” [Levítico 23:4-6]

Observe que não está escrito que essas eram festas dos judeus, ou dos cristãos, mas as festas do Senhor. Quem opta por celebrá-las, não está sendo “judaizante”, mas celebra-as em honra ao Senhor. No dia de Pães Ázimos, Jesus estava sepultado.

Todos os dias de festa (Páscoa, Pães Ázimos e Primícias) celebramos Jesus. Ele teve um tempo profético (pré-determinado) para morrer, ser enterrado e ressuscitar. Essas celebrações da primavera (do hemisfério norte), a saber, de Páscoa, de Pães Ázimos e de Primícias foram estipuladas por Deus para identificar, no futuro, muitos séculos depois, o momento de três acontecimentos fundamentais na vida do Messias: a Sua morte (Páscoa), o Seu sepultamento (Pães Ázimos) e a Sua ressurreição (Primícias). O primeiro dia da festa dos Pães Ázimos (um Shabbat) é uma memória do dia em que Ele esteve sepultado e literalmente descansou.

Respondeu-lhes Jesus: É chegada a hora de ser glorificado o Filho do Homem. Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto.” [João 12:23-24]

Antes de tudo, vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras.” [1 Coríntios 15:3-4]

Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida. Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição, sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos; porquanto quem morreu está justificado do pecado.” [Romanos 6:4-7]

Fermento, na terminologia metafórica usada na Bíblia, simboliza o pecado. Deus exigia que Israel tivesse, a cada ano, uma semana de limpeza do fermento de suas casas, em comemoração da libertação deles do Egito (Êxodo 12:15). Isso, na Nova Aliança, simboliza que devemos nos limpar do pecado e das obras da carne, a fim de que sejamos puros e sem ‘fermento’. Uma pessoa com “fermento” é uma pessoa inflada, cheia de si.

O apóstolo Paulo deu à Igreja estas instruções específicas:

Por isso, celebremos a festa não com o velho fermento, nem com o fermento da maldade e da malícia, e sim com os asmos da sinceridade e da verdade.” [1 Coríntios 5:8]

Tendo, pois, ó amados, tais promessas, purifiquemo-nos de toda impureza, tanto da carne como do espírito, aperfeiçoando a nossa santidade no temor de Deus.” [2 Coríntios 7:1]

E Jesus lhes disse: Vede e acautelai-vos do fermento dos fariseus e dos saduceus. Eles, porém, discorriam entre si, dizendo: É porque não trouxemos pão. Percebendo-o Jesus, disse: Por que discorreis entre vós, homens de pequena fé, sobre o não terdes pão? Não compreendeis ainda, nem vos lembrais dos cinco pães para cinco mil homens e de quantos cestos tomastes? Nem dos sete pães para os quatro mil e de quantos cestos tomastes? Como não compreendeis que não vos falei a respeito de pães? E sim: acautelai-vos do fermento dos fariseus e dos saduceus. Então, entenderam que não lhes dissera que se acautelassem do fermento de pães, mas da doutrina dos fariseus e dos saduceus.” [Mateus 16:6-12]

Ressurreição

Em Levítico 23:10-11, Deus ordenou que as primícias (os primeiros grãos amadurecidos) da colheita (sendo a maior parte desses grãos os de cevada, que eram plantados no início da primavera e já amadureciam na Páscoa) fossem oferecidos a Ele anualmente, no dia seguinte ao Sabbath de Pães Ázimos, ou seja, no primeiro dia da semana logo após o sacrifício da Páscoa:

Fala aos filhos de Israel e dize-lhes: Quando entrardes na terra, que vos dou, e segardes a sua messe, então, trareis um molho das primícias da vossa messe ao sacerdote, este moverá o molho perante o SENHOR, para que sejais aceitos; no dia imediato ao Sabbath, o sacerdote o moverá.” [Levítico 23:10-11]

Hoje, quando se fala em Páscoa, os cristãos se lembram do domingo da ressurreição. Na realidade, a ressurreição é o acontecimento mais marcante e maravilhoso da semana da Páscoa mas, a rigor, a Páscoa é o dia do sacrifício do cordeiro (ou é o termo que identifica o próprio cordeiro pascal, em “sacrificar a páscoa”) – não o dia da ressurreição.

O dia da ressurreição de Cristo é, no calendário levítico, a Festa das Primícias, que inclusive tipifica muito bem algo subindo para o Pai, no gesto da oferta movida (os primeiros grãos da colheita sendo oferecidos para o alto pelo sacerdote, no mesmo instante em que Cristo se apresentou ao Pai, após a ressurreição).

Na manhã do primeiro dia da semana do antigo calendário hebreu (o dia imediatamente seguinte ao Sabbath de Pães Ázimos), Jesus ressuscitou dos mortos.

Mas, no primeiro dia da semana, alta madrugada, foram elas ao túmulo, levando os aromas que haviam preparado. E encontraram a pedra removida do sepulcro; mas, ao entrarem, não acharam o corpo do Senhor Jesus.” [Lucas 24:1-3]

Assim, Jesus cumpriu o que havia sido prefigurado na Festa das Primícias. Jesus é as Primícias!

Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem. Visto que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos. Porque, assim como, em Adão, todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo. Cada um, porém, por sua própria ordem: Cristo, as primícias; depois, os que são de Cristo, na sua vinda.” [1 Coríntios 15:20-23]

Então, eles lhe perguntaram: Mulher, por que choras? Ela lhes respondeu: Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram. Tendo dito isto, voltou-se para trás e viu Jesus em pé, mas não reconheceu que era Jesus. Perguntou-lhe Jesus: Mulher, por que choras? A quem procuras? Ela, supondo ser ele o jardineiro, respondeu: Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei. Disse-lhe Jesus: Maria! Ela, voltando-se, lhe disse, em hebraico: Raboni (que quer dizer Mestre)! Recomendou-lhe Jesus: Não me detenhas; porque ainda não subi para meu Pai, mas vai ter com os meus irmãos e dize-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus. Então, saiu Maria Madalena anunciando aos discípulos: Vi o Senhor! E contava que ele lhe dissera estas coisas. Ao cair da tarde daquele dia, o primeiro da semana, trancadas as portas da casa onde estavam os discípulos com medo dos judeus, veio Jesus, pôs-se no meio e disse-lhes: Paz seja convosco!” [João 20:13-19]

O simbolismo cristão da Páscoa ocorre no início do Seder (o jantar de Páscoa no cerimonial judaico). Três matzas (pães ázimos) são colocados juntos. Os judeus (que não creem que Jesus seja o Messias) não sabem explicar o que representam, mas nós cristãos entendemos que representam a trindade divina (o Pai, o Filho e o Espírito Santo). O matza do meio (chamado “Afikomen”, que significa ‘o que vem depois’) está quebrado, embrulhado em um pano branco, e escondido, o que representa a morte e o sepultamento de Jesus.

Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim.” [1 Coríntios 11:23-24]

Tomaram, pois, o corpo de Jesus e o envolveram em lençóis com os aromas, como é de uso entre os judeus na preparação para o sepulcro.” [João 19:40]

O matzá em si é projetado para representar Jesus, uma vez que é marcado em listras e todo perfurado, conforme foi profetizado por Isaías, Davi, e Zacarias.

Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.” [Isaías 53:5]

Cães me rodearam! Um bando de homens maus me cercou! Perfuraram minhas mãos e meus pés.” [Salmos 22:16]

E derramarei sobre a família de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém um espírito de ação de graças e de súplicas. Olharão para mim, aquele a quem traspassaram, e chorarão por ele como quem chora a perda de um filho único, e se lamentarão amargamente por ele como quem lamenta a perda do filho mais velho.” [Zacarias 12:10]

Após a refeição do Seder, o matzá escondido (“enterrado”) reaparece (“ressuscita”), o que foi previsto nas profecias de Davi.

Porque tu não me abandonarás no sepulcro, nem permitirás que o teu santo sofra decomposição.” [Salmos 16:10]

Senhor, tiraste-me da sepultura; prestes a descer à cova, devolveste-me à vida.” [Salmos 30:3]

Mas Deus remirá a minha alma do poder da morte, pois ele me tomará para si.” [Salmos 49:15]

Não morrerei; antes, viverei e contarei as obras do SENHOR.” [Salmos 118:17]

A Comunhão Cristã

Foi durante uma ceia de Páscoa (Seder) que Jesus proclamou que a refeição representava Ele próprio e que Ele estava instituindo a Nova Aliança, que havia sido predito pelos profetas Jeremias, Ezequiel e Isaías.

E disse-lhes: Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta Páscoa, antes do meu sofrimento.” [Lucas 22:15]

Eis aí vêm dias, diz o SENHOR, em que firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá. Não conforme a aliança que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; porquanto eles anularam a minha aliança, não obstante eu os haver desposado, diz o SENHOR. Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o SENHOR: Na mente, lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo.” [Jeremias 31:31-33]

Dar-lhes-ei um só coração, espírito novo porei dentro deles; tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei coração de carne; para que andem nos meus estatutos, e guardem os meus juízos, e os executem; eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus.” [Ezequiel 11:19-20]

Eu, o SENHOR, te chamei em justiça, tomar-te-ei pela mão, e te guardarei, e te farei mediador da aliança com o povo e luz para os gentios; para abrires os olhos aos cegos, para tirares da prisão o cativo e do cárcere, os que jazem em trevas.” [Isaías 42:6-7]

A celebração deste pacto tornou-se a ordenança da comunhão na Igreja Cristã . No final da refeição, Jesus tomou o pão ázimo, partiu-o e disse que representava o Seu corpo.

Enquanto comiam, tomou Jesus um pão, e, abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai, comei; isto é o meu corpo. A seguir, tomou um cálice e, tendo dado graças, o deu aos discípulos, dizendo: Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue, o sangue da [nova] aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados.” [Mateus 26:26-28]

Então, Ele tomou o cálice de vinho, que teria sido a terceira taça do Seder – o cálice da redenção. Ele disse que era a nova aliança no seu sangue “derramado por vós”.

Semelhantemente, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este é o cálice da nova aliança no meu sangue derramado em favor de vós.” [Lucas 22:20]

É através da morte sacrificial e ressurreição de Jesus Cristo que somos declarados limpos diante de Deus, permitindo que aqueles de nós que optarem por aceitar o Seu perdão tenham comunhão com Ele – agora e para sempre, através da vida eterna que Ele oferece.

Conclusão

Os eventos narrados em Êxodo 12 (sobre a Páscoa do povo judeu e a libertação do Egito) foram acontecimentos reais, históricos, e providos de significado suficiente para ser celebrado até hoje, por um povo que tanto sofreu e que foi libertado da escravidão. Mas além disso, também foram sombras e figuras de eventos futuros que iriam se concretizar na vida de Jesus. Portanto, quando lhe disserem que a Páscoa judaica e a Páscoa cristã são comemorações totalmente diversas, agora saberá que uma é o tipo (o símbolo, o modelo) e outra o antitipo (a concretização, o cumprimento profético). Uma é a sombra e a outra a substância. Cristo é o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Deus sempre revelou o seu plano profético por meio de tipos e figuras.

Veja algumas passagens aqui:

Oséias 12:10: “Falei aos profetas e multipliquei as visões; e, pelo ministério dos profetas, propus símiles.

Col 2:16-17 “Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, Que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo”.

Rom 5:14 “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir.

1Co 10:1-6 “Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, e todos passaram pelo mar. E todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar, E todos comeram de uma mesma comida espiritual, E beberam todos de uma mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo. Mas Deus não se agradou da maior parte deles, por isso foram prostrados no deserto. E estas coisas foram-nos feitas em figura, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram.”

Heb 9:24  “Porque Cristo não entrou num santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, porém no mesmo céu, para agora comparecer por nós perante a face de Deus”.

Heb 11:17-19 “Pela fé ofereceu Abraão a Isaque, quando foi provado; sim, aquele que recebera as promessas ofereceu o seu unigênito. Sendo-lhe dito: Em Isaque será chamada a tua descendência, considerou que Deus era poderoso para até dentre os mortos o ressuscitar; E daí também em figura ele o recobrou“.

1Pe 3:20-21 “Os quais noutro tempo foram rebeldes, quando a longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca; na qual poucas (isto é, oito) almas se salvaram pela água; Que também, como uma verdadeira figura, agora vos salva, o batismo, não do despojamento da imundícia da carne, mas da indagação de uma boa consciência para com Deus, pela ressurreição de Jesus Cristo”.

Amós 3:7: “Certamente, o SENHOR Deus não fará coisa alguma, sem primeiro revelar o seu segredo aos seus servos, os profetas.

Infelizmente, esses tipos e figuras nem sempre são percebidos, pelo fato de cristãos terem, no passado, alterado (sem qualquer respaldo bíblico para isso) a data que o próprio Senhor definiu para o dia da comemoração do sacrifício pascal (o dia 14 do primeiro mês judaico). Cristãos criaram um calendário próprio, totalmente dissociado do que havia sido definido nas escrituras. Isso arruína a percepção dos tipos e figuras. O motivo dessa alteração de datas deve ter sido um deplorável antisemitismo, associado ao fato de que a Igreja Católica preferia ter um calendário próprio para as festas religiosas, não dependente do calendário hebreu. Por muito menos do que isso, ao arruinar um tipo e figura que Deus queria estabelecer (em Números 20:7-12), Moisés foi repreendido por Deus.

Em alguns anos (como foi o caso de 2012), o dia 14 de Nisan (dia da morte do cordeiro pascal, conforme determinado em Levítico 23:5) coincide com uma sexta-feira (“Sexta-feira da Paixão”).

Se as datas não tivessem sido alteradas pelas igrejas cristãs, o nome da Sexta-Feira da Paixão continuasse a ser chamado como Páscoa e o dia da Ressurreição prosseguisse chamado de Festa de Primícias (e não Páscoa), isso muito facilitaria que judeus enxergassem o Messias (Jesus, o Cristo) revelado na Páscoa do Êxodo, e muitos gentios conseguiriam enxergar um plano profético cuidadosamente preparado por Deus, milênios antes da vinda de Cristo para ser o Cordeiro de Deus e as Primícias dos que dormem.

Infelizmente, além de as datas terem sido mudadas pelos cristãos, Jesus (cujo nome hebraico é Yeshua) é pintado como um gentio, exatamente como os irmãos de José (na história de Gênesis) o viam no Egito. Os irmãos hebreus de José (Yosef) não conseguiram reconhecê-lo quando foram ao Egito porque ele estava vestido de egípcio, tinha um nome egípcio e até uma esposa egípcia. Só quando José se revelou aos irmãos hebreus é que eles o reconheceram. A história de José, a propósito, apresenta um extraordinário tipo profético.

Isso tudo tem desdobramentos interessantíssimos, uma vez que há sete Festas do Senhor, e as descritas acima são somente três. Todas as demais também envolvem cumprimentos proféticos futuros e este é mais um forte motivo para lermos e estudarmos o Antigo Testamento, que contém verdadeiras preciosidades e muito nos ajudam a compreender todo o ministério de Jesus Cristo e iluminar a compreensão do Novo Testamento.

Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que pela paciência e consolação das Escrituras tenhamos esperança”. [Romanos 15:4]

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Um comentário sobre “Cristo revelado na Páscoa judaica

  1. Muito esclarecedor. Como é bom aprender. É necessário um estudo mais a fundo para compreendermos melhor as Escrituras. Preciso saber mais. Obrigado e que Deus os abençoe sempre.

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